"ARTE DE PROVOCAR INQUIETAÇÃO"
Breve biografia de Adriana Focas
“Minha primeira referência de bonecos foi o Vila Sésamo, na televisão. Para mim, este era um gênero que só existia para crianças, naquele formato. Estudei teatro no Circo Voador, na Casa de Artes das Laranjeiras, e fiz cursos livres na Casa do Estudante Universitário e no Núcleo Artístico da Urca, que são escolas do Rio de Janeiro, onde passei toda minha adolescência. O teatro foi uma recomendação para eu me libertar da timidez e realmente deu certo. Eu tinha acabado de deixar Belo Horizonte para morar numa cidade como o Rio de Janeiro e achava tudo chato, não gostava dos colegas nem do ambiente social da Zona Sul. O Circo Voador foi a minha salvação.
Prestei vestibular para cinema, mas logo retornei a Minas Gerais e prestei vestibular em Comunicação na UFMG. Na Fafich, assisti a um espetáculo do Grupo Galpão, com bonecos. Aquilo foi uma descoberta, embora a peça tivesse um caráter descompromissado. Em 1988, Lelo montou “O dragão que queria ver o mar” e eu entrei na produção, primeiro para colaborar, mas em pouco tempo já atuava profissionalmente na equipe. Então veio a Catibrum e o teatro de bonecos passou a ser algo surpreendente para mim. O encantamento que ele provoca envolve todo mundo. Em “O baile do Menino Deus” passei à manipulação. De repente, inverteu o raciocínio porque era necessário dar vida a outro personagem sem perder a consciência corporal do ator. Era uma experiência nova. Continua
A manipulação faz o artista perder a vaidade porque ele tem que transferir tudo ao boneco, que passa a ser o centro das atenções. Aprendi com mestres mamulengueiros que o boneco tem personalidade, vontade própria, com carisma muitas vezes maior que o de um ator. Isso, porque tem possibilidades infinitas, num corpo que não tem os limites do humano. Essa capacidade é o que mais me atrai nesta arte. Em pouco tempo veio o Festival, e fiquei completamente absorvida com a produção.
Como curadora, avalio dramaturgia, qualidade da manipulação e convencimento do público. Um espetáculo precisa, prioritariamente, ser tocante para a plateia, como “Adieus Benjamin”, que não vou esquecer jamais. Às vezes um grupo tem técnica perfeita, mas não se comunica com as pessoas, então, não vale.
A provocação tem sido essencial na programação que oferecemos anualmente. Este é o único consenso. Eu e Lelo pensamos na diversidade, na oportunidade de mostrar o que é possível fazer a partir de técnicas variadas, como sombra, fios, objetos, e a versatilidade do gênero, que tanto pode estar voltado para o bom entretenimento, como pode tratar de questões políticas, ideológicas, existenciais. Assim como o Festival de Canela há muitos anos nos tocou de tal forma que nos inspirou a criar o Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Belo Horizonte, queremos proporcionar essa descoberta ao público mineiro. Fazer rir, pensar, refletir, com inquietação, despertando desejos de quem sabe criar uma nova companhia ou motivar o surgimento de um novo artista, como vem acontecendo ao longos destes 10 anos de realizações. Isso nos orgulha e alimenta nosso desejo de continuar nos dedicando integralmente ao teatro de animação”.
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