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Os Títeres no Mundo

“Deus reside no coração de todos os homens, Arjuna vosso Deus reside em vosso coração. E o poder move todas as coisas-títeres numa peça de sombras - rodopiando-os eternamente na correnteza do tempo.”
(Bhagavadgita, XVIII. 6.1)

O homem, muito cedo, criou a marionete à sua imagem. Não apenas jogo e símbolo, boneco e ator, títere e obra de arte, mas também divertimento e espetáculo.

A marionete desempenha em todas as sociedades um papel múltiplo e importante. Supõe-se que as primeiras representações ocorriam em cerimônias religiosas. Muitas são as lendas sobre a aparição dos mesmos. Os gregos chamavam-lhes Neurospasmata - objetos postos em movimento com pequenas cordas - que na época de Sófocles já constituíam espetáculos autônomos. Aristóteles designa claramente os títeres ao falar:

"Aqueles que representam homens e todos os seus gestos por meios de bonecos de madeira. Vemo-los voltar o pescoço, inclinar a cabeça, revirar os olhos, as mãos obedecem exatamente ao movimento que exigimos dela: toda essa gentinha de pau parece viver e animar-se".


ÁSIA – O BERÇO DOS TÍTERES

Java possui diferentes expressões teatrais denominadas Wayang, termo que significa "teatro". As representações de Wayangs são feitas por um só Dalang (intérprete) que recita e canta acompanhado da Gamelan (orquestra típica da região).

Na Birmânia, há registros de títeres de fios de pequeno e grande porte. Essa técnica penetrou no norte da Birmânia trazida por imigrantes do oeste da china. 

Os títeres de sombras são muito populares na Índia, China e em quase toda a Ásia.


A MARIONETE E A RELIGIÃO

De um modo geral, segundo algumas suposições, as marionetes eram imagens sagradas. Participavam nas cerimônias religiosas e nos mistérios, agrupadas em desfiles. O próprio nome testemunha o caráter religioso: era um dos nomes dados às estatuetas da Virgem Santa expostas à veneração pública nas igrejas e nas ruas. Do nome Maria fizeram Mariette, Mariole, Marion e Marionnette.

Quando começaram as proibições de se usar marionetes dentro das igrejas, tornou-se costume compor com elas presépios de autômatos na época do natal, nos átrios das igrejas.


OS TÍTERES NA EUROPA

Na Europa, as marionetes conservaram durante muito tempo a tradição medieval, indo buscar seu repertório principalmente nos romances de cavalaria.

Os primeiros personagens dos espetáculos de títeres foram pouco numerosos. Eram espetáculos, em que os titeriteiros se limitavam a alguns tipos caricaturais que animavam situações dramáticas pouco variadas.

O personagem principal dos títeres italianos é o Pulcinella - personagem da commédia dell'arte que é assimilado pelo teatro de títeres, inicialmente com a técnica de "Fantoccio" (fios), e mais tarde com a de "Burattino" (luva).

Da Itália o títere chegou à Inglaterra com o nome de Punch e na França no final do reinado de Luís XIII sob os nomes de Polichinelle e Guignol - considerado o herói mais célebre dos títeres franceses.

Pulcinella, Punch e Guignol representam o gênio inventivo popular um tanto ingênuo e sempre alegre que ri de tudo, mente descaradamente e prega peças de mal grado.

Esses traços de anti-herói também são encontrados em títeres de diversas partes do mundo.


OS NOMES DOS TÍTERES

Por todo o mundo o teatro de bonecos apresenta-se com uma nomenclatura variada. Na Itália o Pulchinella; na Turquia, o Karagoz; na Grécia, as Atalanas; na Alemanha, o Kasper; na Rússia, o Petruska; em Java, os Wayangs; na Espanha, o Don Cristobal; na Inglaterra, o Punch; na França, o Guignol; na Bélgica, o Tchandet e no Brasil o Capitão João Redondo entre outros.


OS TÍTERES NO BRASIL
Texto de Magda Modesto

É em sua miscigenação etno-cultural que o Brasil se concretiza como nação.
Da fusão indígena-luso-africana surgem o povo brasileiro e suas manifestações culturais, entre estas, a dos títeres, que, através da estética, da temática, de técnicas e do perfil de personagens deixa transparecer essas raízes.

No nordeste esses espetáculos se manifestam em vários estados, recebendo diferentes denominações, tais como: Babau, Calungas, Cassimiro Coco, João Redondo e Mamulengo.

Essas "brincadeiras" possuem uma rica dramaturgia de tradição oral, cuja temática se desenvolve como uma crônica da comunidade.

Como na vida do homem, o espetáculo é constituído de "passagens" (cenas), que se apresentam sem seqüência lógica, entremeada de cantos (loas) e danças.

"Brincar" (representar) não garante a sobrevivência dos "mestres" da "brincadeira" (espetáculo), os quais se desdobram em outros ofícios, sobretudo na agricultura. Suas casas são pobres, suas panelas vazias, mas sua criatividade é rica e ilimitada. Com uma surpreendente capacidade de adaptação, características do povo brasileiro, passam a dominar uma "tecnologia de escassez" transformando a diversidade em fantasia e alegria. Saciam assim o "vício do brinquedo" onde revelam os desequilíbrios sociais através do riso, propiciando reflexões sobre a realidade de sua sociedade.

Utilizando uma linguagem específica, destinada ao seu público, o "mestre”, como nos velhos Polichinelles e outros, faz uso de um interlocutor para dinamizar os espetáculos. A provocação incentiva a participação da platéia, e, com esta o "brincante" se realimenta.

Compreender a fantasia do "mestre" é captar a sua perspicácia frente à realidade do seu meio.

Na confecção ainda são utilizadas as tradicionais técnicas de entalhe, assim como a reciclagem dos mais diversos materiais. As técnicas de manipulação são várias - luva, vara, varetas entre outras.

Inúmeras são as trucagens - articulações de boca, olho, língua, corpo e até cabeças que saem.

Enquanto no nordeste as manifestações de títeres de expressão popular perduram, no resto do país estão se diluindo.

- BIBLIOGRAFIA -