Balões e poesia unidos no mesmo vôo

José da Costa | 21/07/2008

As primeiras imagens do espetáculo “Homem voa?” são sombras projetadas por trás do grande telão ao fundo do palco frontal, no Teatro Santo André, onde o trabalho da companhia mineira Catibrum Teatro de Bonecos se apresentou no Festival de Rio Preto. Vemos, no início da peça, apenas as imagens negras que lembram uma construção barroca e trazem à memória a arquitetura da cidade de Veneza na Itália. Entretanto, o que a imagem retrata, de fato, é um conhecido Colégio de Freiras de Diamantina, em Minas Gerais. Aqueles que conhecem bem a cidade podem decodificar, sem maiores dificuldades e de modo preciso, a referência visual. As sombras mostram ainda uma estrada de ferro e um trem que a atravessa. A beleza das imagens diz respeito à minúcia dos procedimentos utilizados para a construção das figuras e para a projeção das sombras. O Colégio é recortado em um tipo de papelão e é montado como um volume em três dimensões, enquanto o trem e a estrada de ferro não foram construídos pela companhia, mas são miniaturas industriais destinadas a colecionadores. Mas dessas figuras, só vemos as sombras sobre o telão. Além desse momento inicial há outras projeções de teatro de sombras no telão do fundo, a exemplo dos momento em que vemos o vôo do primeiro aeroplano dirigível e auto-impulsionado circulando a Torre Eiffel em Paris, enquanto uma multidão assiste a proeza do brasileiro Alberto Santos Dumont. A utilização de refletores caseiros preparados pelo grupo e manipulados atrás da tela é que garante tanto as diferenças de tamanhos das figuras, quanto a sensação de profundidade, sendo esses refletores manipuladas atrás do telão fundamentais para a produção do efeito de coerência interna da imagem nos termos de certo realismo poético do retrato e da paisagem.

Ocorre, porém, que não é essa coerência interna, garantidora da verossimilhança e de uma associação referencial razoavelmente segura, o que mais importa na manipulação das sombras no espetáculo, que tem dramaturgia e direção de Lelo Silva e que se construiu a partir do livro de história em quadrinhos intitulado “Santô e os Pais da Aviação”, de autoria de João Spacca. O efeito mais significativo do trabalho se associa com a fatura poética que o grupo extrai não só das sombras no telão de fundo, mas do conjunto das formas animadas e de sua interconexão sintática dentro da narrativa apresentada. Em certo momento, o boneco que representa Santos Dumont desenha um croqui de balão dirigível. Nesse instante, o desenho vai sendo delineado sobre o telão de fundo. Trata-se de um desenho que está sendo feito por outro animador fora do campo de visão do espectador. É esse outro desenho que será mostrado por meio de um retro-projetor enquanto ele se realiza. Entendemos que a sucessão de traços está sendo produzida pelas mãos de Santos Dumont, em sua ansiedade de estudar e planejar como poderia realizar, de modo cada vez mais aperfeiçoado, o sonho de dar asas aos seres humanos. É a opção por persistir no sonho e por insistir em vencer as limitações impostas pela realidade tal qual se apresenta que vai definir o intenso vôo poético do grupo mineiro.

Em termos de sombras, há ainda um momento de especial beleza em que uma festa junina que aparece ao fundo, com as bandeirinhas típicas, vai ser conectada com o balão que o menino Santos Dumont solta, estando o boneco que representa a criança sobre a bancada disposta na frente do palco. A festa junina do telão e o balão na bancada se associam, produzem efeitos de sentido que se ligam ao desdobramento narrativo propriamente dito, mas que ganham certa autonomia poética na alusão à idéia de sonho e de utopia. Libertando-se da pura objetividade narrativa e da mera coerência referencial, outro procedimento importante é da hibridização de formas. Os bonecos antropomórficos são freqüentemente construídos como figuras que conjugam formas humanas e maquinais. Exemplo disso é o pai de Santos Dumont, cujo corpo ao invés das pernas tem um trem que desliza. Também o boneco que representa o mecânico profissional que ajuda Santos Dumont na fabricação de motores é construído como figura híbrida: humano na parte de cima, tendo abaixo da cintura uma mola no lugar de pernas. Isso determina o modo como se desloca o personagem, sempre aos saltos, e produz efeito surpreendentemente mágico no momento em que o mecânico conversa com um balão que fala e tem um rosto humano desenhado. Para falar ao balão que está em altura mais elevada, o mecânico profissional se impulsiona por meio da mola, que lhe permite encompridar-se em direção ao alto. Esses hibridismos têm uma ancoragem referencial, de tipo histórico-biográfico. O pai de Santos Dumont, por exemplo, foi um engenheiro responsável pela construção de estradas de ferro em Minas Gerais no final do século XIX. Então a hibridização do humano e do trem de ferro no corpo do boneco que representa o pai justifica-se na biografia do herói da aviação. É claro que essa informação factual sobre a profissão do pai de Santos Dumont não se encontra no repertório de todos os espectadores, mas a não decodificação dessa referência, não elimina a riqueza de sentidos e a provocação ao imaginário do espectador que a forma híbrida e sua manipulação promovem. Do mesmo modo que o reconhecimento do edifício do tradicional colégio de Diamantina no início do espetáculo não será decisivo para o efeito poético produzido. As formas híbridas de aspectos humanas e elementos mecânicos libertam-se parcialmente da justificativa histórico-biográfica e referencial, ganhando autonomia como vôo do imaginário poético.

Esse imaginário se completa com as demais esculturas como as de balões, de aeroplanos, da casa de Santos Dumont e das sombras das crianças que em certo momento aparecem, à direita, abaixo da bancada principal, disposta na frente da cena, em toda a extensão do palco. A destreza do elenco de manipuladores formado por Eduardo Santos, Amaury Borges, Lelo Silva, Admar Fernandes e Cecília Berger soma-se à sua sensibilidade como atores que sabem acrescentar sua expressão facial e vocal aos impulsos, desejos e sentimentos dos personagens representados pelos bonecos. O espetáculo do experiente grupo mineiro de dezoito anos de idade demonstra a imensa contribuição que a linguagem de formas animadas pode dar e tem dado em termos de voltagem poética para as artes cênicas no Brasil. Encantam-se, porque libertam-se do horizonte do habitual e do familiar, tanto os espectadores mirins, quanto os adultos, estimulados igualmente pelos sonhos de Santos Dumont e pela eficiente delicadeza dos procedimentos artísticos com os quais o grupo Catibrum move suas utopias mecânico-humanas de ativação do poético no belo espetáculo “Homem voa?”.

José Da Costa é professor-pesquisador de História e Teoria do Teatro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), sendo atualmente o Diretor da Escola de Teatro dessa Universidade. É também diretor de teatro e o criador do Grupo Mergulho no Trágico e o encenador e dramaturgo do Núcleo de Investigação Teatral da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

(Crítica publicada originalmente em www.festivalriopreto.com.br.)

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